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quinta-feira, 19 de maio de 2011

Bullying não é nada disso

Além de banalizar o conceito, o que mais conseguimos ao abusar desse termo? Alarmar os pais

Há muita gente que não aguenta mais ouvir falar de bullying. O assunto é tema de reportagens nos jornais diários de todos os tipos, nas revistas semanais, nas prateleiras das livrarias, nas bancas de revistas, na internet etc.
Já conseguimos esvaziar o sentido dessa palavra e seu conceito de tanto que a usamos e de tanto fazer associações indevidas com o termo.
Basta um pequeno drama ou uma grande tragédia acontecer, envolvendo jovens, que não demora a aparecer a palavra mágica. Agora, ela serve para quase tudo.
Além de banalizar o conceito, o que mais conseguimos com o abuso que temos feito dele? Alarmar os pais com filhos de todas as idades.
Agora, a preocupação número um deles é evitar que o filho sofra o tal bullying. O filho de quatro anos chega em casa com marca de mordida de um colega? Os pais já pensam em bullying. A filha reclama de uma colega dizendo que sempre tem de ceder seu brinquedo, ou o filho diz que tem medo de apanhar de um colega de classe? Os pais pensam a mesma coisa.
Alguns deram, por exemplo, de reclamar que a escola que o filho frequenta tem, no mesmo espaço, estudantes de todas as idades e dos vários ciclos escolares.
Então agora vamos passar a considerar perniciosa a convivência entre os mais jovens porque há diferença de idade entre eles? Decididamente, isso não é uma boa coisa.
As crianças e os jovens aprendem muito, muito mesmo, com o convívio com seus pares mais novos e mais velhos. Ter acesso a alguns segredos da vida adulta pelas palavras de outra criança ou de um adolescente, por exemplo, é muito mais sadio e interessante do que por um adulto. Um exemplo? A sexualidade.
Outro dia ouvi um diálogo maravilhoso entre uma criança de uns dez anos e um adolescente de quase 16. O assunto era namoro. Em um grupo, os mais velhos comentavam suas façanhas beijoqueiras com garotas. A criança ""pelo que entendi, ele era irmão de um dos mais velhos"" passou a participar da conversa querendo saber detalhes do que ele chamou de beijo de língua e ameaçou começar a também contar suas vantagens.
Logo a turma adolescente reagiu, e um deles falou que ele era muito criança para entrar no assunto. E um outro disse, sem mais nem menos: "Agora você está na idade de ouvir essas coisas e não de fazer, está entendido?". O menor calou-se e ficou prestando a maior atenção à conversa dos maiores, sem intervir.
Imaginei a cena se tivesse acontecido com o garoto de dez anos e adultos. Não seria nada difícil que eles dessem atenção ao menino, que quisessem saber e fornecer detalhes a respeito das intimidades que podem acontecer num encontro entre duas pessoas. Muito melhor assim do jeito que foi, não é verdade? Com a maior simplicidade, o garoto foi colocado em seu lugar de criança e nem se importou com isso, mas, mesmo assim, pôde participar como observador da conversa dos mais velhos.
Conflitos, pequenas brigas, disputas constantes acontecem entre crianças e jovens? Claro. Sempre aconteceram e sempre acontecerão.
Mas esses fatos, na proporção em que costumam acontecer, não podem ser nomeados como bullying. Fazer isso é banalizar o tema, que é sério. Aliás, isso tudo acontece sem ultrapassar os limites das relações civilizadas se há adultos por perto. Essa é nossa questão de sempre, por falar nisso.
O verdadeiro bullying só acontece em situações em que os mais novos se encontram por conta própria, sem a companhia e a tutela de adultos, sem ainda ter condições para tal.
Caro leitor: se você tem filhos, não os prive da companhia de colegas diferentes no comportamento, na idade etc.
Esses relacionamentos, mesmo conflituosos, são verdadeiras lições de vida para eles que, assim, aprendem a criar mecanismos de defesa, a avaliar riscos e, principalmente, a reconhecer as situações em que precisam pedir ajuda.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de"Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

fonte: http://www.alana.org.br

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sociabilidade para uma cultura de paz

Pais devem ensinar filhos a conviver com as diferenças. Respeitar a diversidade também é prevenir o bullying
Foto: Getty Images

Famílias e escolas devem dialogar para ensinar as crianças a respeitar o diferente e exercitar a paz

Os pais têm entre os seus grandes desafios ensinar a criança a respeitar a diversidade para formar um cidadão preparado para o seu tempo, capaz de ter uma vida social saudável. Desde bem pequenas, as crianças precisam aprender a respeitar as diferenças e sentir que existe um espaço para a livre convivência entre todos. A educação, em casa e na escola, deve dar conta de colocá-las em contato com essa realidade.

Respeitando colegas gordinhos e magrelos, que gostam de correr e gritar ou que preferem ficar quietos, que gostam de jogar futebol ou preferem ler um livro, a criança desenvolve empatia, tolerância, solidariedade e a percepção ética que carregará pela vida toda, alimentando uma cultura de paz.

Vejo os casos de bullying pelo mundo afora e penso nos meus tempos de menina: uma verdadeira selvageria! Estudantes marcavam brigas na porta da escola e os bailinhos de garagem acabavam com os adolescentes embriagados de cuba-libre trocando socos e pontapés. Há 40 anos, os apelidos para desqualificar eram a coisa mais comum do mundo e ninguém parecia preocupado em mudar aquilo. Bastavam algumas sardas para virar o Ferrugem, um menino negro era chamado de Suco de Pneu e ninguém sabia o nome do amigo mudo, pois todos o conheciam como Mudinho.

Crianças e adolescentes repetiam com esses comportamentos a violência e os preconceitos que viam na família e em qualquer canto. Ninguém dava nome para a doença social e as cenas não iam parar na internet, mas o conflito estava lá, presente na infância e na adolescência. Não é isso o que queremos para os nossos filhos.

Para o pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) Renato Antonio Alves, o bullying mostra que precisamos de uma cultura de paz. Vivemos a falência do mundo adulto no aspecto social e do desenvolvimento humano. “É uma questão de valor. Para mudar a criança, tem de mudar o adulto. Estamos distantes ainda, mas, mais próximos do que estávamos há 30 ou 40 anos”.

Para o pesquisador, apesar de todos os problemas, no passado, os papéis eram mais definidos. Os cuidados da mãe e a autoridade do pai eram percebidos e respeitados pelas crianças, embora, muitas vezes, por força do autoritarismo. Mas, bem ou mal, elas tinham parâmetros de conduta. Ao contrário do que acontece com frequência hoje em dia, os pais assumiam a responsabilidade pela educação.

Agora, na avaliação de Renato, as crianças “vivem uma solidão atroz”, quando os pais – uns porque precisam, outros porque querem – ficam ausentes de casa o dia inteiro até à noite, deixando os filhos por conta deles mesmos, do irmão mais velho ou de outras pessoas. “Os filhos não contam o que está acontecendo, mas os pais não percebem?! Ninguém está percebendo porque ninguém está vendo”.

Para diminuir a violência contra as crianças e contribuir para o desenvolvimento saudável da sociabilidade, os pais precisam saber lidar desde as primeiras cólicas do bebê até as artes e infrações cometidas pelos filhos. O pesquisador defende a necessidade de políticas públicas para dar suporte e orientação aos pais, com informação sobre o desenvolvimento infantil, para que eles compreendam a importância da qualidade da relação que estabelecem com os filhos.

O desenvolvimento da sociabilidade não termina em casa, o papel da escola é fundamental. No entanto, muitas instituições caem nesse limbo de responsabilidade, não assumem essa função para evitar confronto com os pais ou clientes. O pesquisador acredita que o atual modelo de educação, que privilegia o conteúdo, não contribui para uma cultura de paz. Ao contrário, fomenta a disputa e a competitividade, pois a criança ingressa na educação infantil com o vestibular como objetivo.

“A escola não assume a função de educar para a convivência coletiva, e quando assume, é no plano secundário. A educação é um terreno fértil para a mudança, para relativizar o que se aprende em casa, para criar empatia com o outro, se identificar com quem sofre, se solidarizar com quem é maltratado e discriminado”. Famílias e escolas precisam dialogar e juntas acolher as crianças para exercitar a paz.

fonte:  delas.ig.com.br

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Como proteger seu filho na internet



4 a cada 10 pais acreditam saber tudo que seus filhos fazem na web, mas 62% das crianças já passaram por "experiências negativas"

Clarissa Passos, iG São Paulo
As crianças brasileiras são campeãs mundiais de tempo passado online: elas ficam, em média, 18,3 horas por semana conectadas à internet. A média mundial é de 11,4 horas por semana - 10% a mais do que no ano passado, quando a média era 9,17 horas semanais. Este e outros dados interessantes sobre a relação das crianças com a web - e o papel dos pais nesta equação - foram divulgados ontem em um relatório de uma empresa de segurança online.

De acordo com o Norton Online Family Report, realizado com mais de 9.800 pessoas em 14 países - entre eles Alemanha, Brasil, China, Estados Unidos, França, Índia, Itália, Japão e Reino Unido - 4 a cada 10 pais afirmam que sempre sabem o que seus filhos estão fazendo online. Um número surpreendentemente alto diante da quantidade de crianças que afirmam ter "experiências negativas" na web: 62% das entrevistadas. Será que os pais realmente monitoram seus filhos? "É possível que eles monitorem o computador de casa, mas muitas vezes as crianças acessam de locais públicos", alerta a advogada Marcela Macedo, do escritório especializado em direito digital PPP Advogados e coordenadora do Movimento Criança Mais Segura na Internet.

52% dos pais admitiram que estão conscientes das atividades internéticas das crianças somente "algumas vezes". Só 5% dos pais confessaram não ter a menor ideia do que os filhos fazem online. Mas, para as crianças, 20% dos pais não sabem de suas atividades e paradeiros virtuais.

E, afinal, o que as crianças fazem online?

Segundo as respostas delas mesmas, 83% jogam, 73% navegam pela internet, 71% fazem tarefas escolares e 67% conversam com os amigos.

Seis a cada 10 pais se preocupam com a possibilidade de seus filhos ficarem expostos a conteúdos indecentes. Eles temem, ainda, que as crianças forneçam informações pessoais demais. Uma preocupação que, para Marcela, tem muita razão de ser. "A criança pode não publicar o endereço da escola onde estuda, mas posta, por exemplo, uma foto com a camiseta do uniforme. Ela não tem experiência suficiente para filtrar aquilo que ela publica, ou para entender o risco que estas informações podem trazer", diz ela.

Experiências negativas

Na pesquisa mundial, 62% das crianças disseram ter tido experiências negativas online. 41% delas relataram ter sido convidadas a fazer parte de redes sociais por pessoas que não conheciam. 33% baixaram vírus. 25% viram imagens violentas ou de nudez e 10% foram convidadas por pessoas desconhecidas a se encontrar com elas na vida real.

"É fundamental que as crianças saibam que seus pais vão ouvi-las e ajudá-las a corrigir as coisas", recomenda Marian Merritt, Conselheira de Segurança na Internet da Norton, no relatório. Marcela concorda e revela a palavra-chave para que os filhos naveguem com segurança: participação. "Os pais precisam participar da vida digital dos filhos, para evitar ao maximo que as coisas ruins cheguem às crianças. O que eles acharem necessário para a segurança dos filhos, devem fazer", recomenda. É importante lembrar que os pais também devem conhecer a rede: "Não há como orientar sem conhecer", finaliza.As crianças reagem a estas experiências negativas de maneiras diferentes. Mais de um terço delas sentem raiva, frustração, medo e preocupação depois das experiências. Um quinto sentem-se envergonhadas, pois acreditam que a culpa pela experiência é delas.

Dicas práticas para monitorar o uso da internet por seu filho

- De tempos em tempos, pesquise os nomes da criança em um sistema de busca, para ver o que aparece.

- Dependendo da idade de seu filho, vale ter as senhas de emails, programas de mensagens instantâneas e redes sociais das quais eles participam. Você pode criar os perfis junto a ele.

- Navegue junto à criança e estabeleça horários para o uso do computador em casa.

- Instale um bloqueador de endereços impróprios.

- Navegue sozinho, participe das redes sociais em que seus filhos se encontram, tenha perfis de programas de mensagens instantâneas. É preciso conhecer para ensinar.

- Deixe o computador de casa em um lugar de passagem, como numa mesa no corredor ou na sala.


fonte: delas.ig.com.br

terça-feira, 13 de julho de 2010

‘Burnout’ de professores, artigo de Montserrat Martins

Qualquer ser humano adoece quando é incumbido de uma tarefa que vai além de suas forças. E nenhum ser humano seria capaz de realizar o que a sociedade vem atribuindo a seus professores, que é a correção dos rumos da própria sociedade. Você já parou para pensar na responsabilidade embutida em frases como “tudo depende da educação ?”. À primeira vista parece uma grande honra para esta categoria profissional, mas na verdade traz em si uma missão que está além do poder dos mestres de realizar.

Basta colocar os pés em qualquer escola pública do país para se perceber que os problemas ali presentes decorrem de deficiências em todas as áreas da sociedade, que incluem a falta de uma políticas sérias do Estado nacional em planejamento familiar, em emprego e renda, em redução das desigualdades sociais, em planejamento urbano, em saúde, em segurança, etc, etc… Pense no que podemos esperar dos nossos professores, com tudo o que a sociedade negligencia em relação à população que lhes destina para ensinar.

Sim, os alunos das escolas particulares estão muito “abusados” e seus pais com freqüência não se colocam “na pele” dos professores, mas para estes conflitos, se necessário, não faltarão psicólogos, médicos, quantos profissionais forem necessários para mediar tais conflitos. Sim, é verdade que a sociedade em seu conjunto vive uma crise de valores, que isso se reflete no comportamento de modo generalizado e que há uma crise de identidade em questões fundamentais como o papel da autoridade e dos limites.

O que é pior – e realmente de adoecer – numa crise, porém, é a absoluta falta de meios para enfrentá-la adequadamente, de modo que seja possível encontrar alternativas viáveis. Uma coisa é você, caso seja professor, enfrentar alunos com valores deturpados e pais omissos, ou arrogantes, por exemplo. Outra coisa é você atender alunos em algumas regiões da periferia onde a maioria dos filhos é criado só pelas mães, enfrentando problemas de desemprego, quando não de franca miséria, fome, em áreas urbanas sob controle do tráfico de drogas – e por aí vai.



Há alguma mágica que os responsáveis pela “educação” sejam capaz de fazer por pessoas tão desassistidas pelo Estado e pela sociedade, em tantos aspectos ? Não parece estranho que ninguém levante essa questão, por aí ? Pois é, por isso mesmo que os professores vem adoecendo, uma doença profissional que se convencionou chamar de “burnout” – expressão em inglês que signfica “queimar por completo” no sentido de consumir-se, esgotar-se em suas energias.

Essa forma de estresse não é privativa dos trabalhadores da educação, atinge também os da saúde, da segurança, enfim, a todos incumbidos de tarefas muito difíceis de serem realizadas, mais ainda nestes tempos da chamada “sociedade de massas” onde os conflitos de relacionamento se multiplicam rapidamente. Talvez o que torne mais evidente o “burnout” dos professores seja exatamente essa “honra” que a sociedade pensa estar lhes atribuindo quando realça o valor primordial do “educar” como a solução fundamental de todos os problemas. Já pensou ? Você gostaria de ter essa “honra”, ou preferiria compartilhá-la com a sociedade inteira ?

Montserrat Martins, Psiquiatra, é colunista do EcoDebate.

EcoDebate,

quinta-feira, 3 de junho de 2010

DIA INTERNACIONAL DAS CRIANÇAS VÍTIMAS DE AGRESSÃO


4 de Junho

Dia quatro de junho não é data para se comemorar. Absolutamente, não.
É um dia, isto sim, para refletirmos sobre algo terrível: a violência contra as crianças.
Quatro de junho, por conseguinte, foi escolhido para ser o Dia Internacional das Crianças Vítimas de Agressão.
Em todo o mundo ela acontece e, aqui, no Brasil, também. Infelizmente.
Dia Internacional das Crianças Vítimas de Agressão
Mas é preciso ficarmos atentos para o significado dessa agressão e nos perguntarmos de que tipo de agressão, afinal, estamos falando. Somente da agressão física? Naturalmente que esta é a mais dolorosa do ponto de vista biológico, mas será ela a mais absurda?
Existem diversos níveis de agressão: a corporal, a psicológica, a social, a econômica... outros deve haver, com certeza, mas por ora fiquemos com esses.

VIOLÊNCIA CORPORAL

Segundo o Ministério da Saúde, a violência é a segunda principal causa de mortalidade global em nosso país e só fica atrás das mortes por doenças do aparelho circulatório. Os jovens são os mais atingidos. Além deles, a violência atinge ainda, em grau muito elevado, as crianças e as mulheres.
Para esta situação contribuem diversos fatores, entre eles, a má distribuição de renda, a baixa escolaridade, o desemprego.
Na cidade de São Paulo, por exemplo, 64% das denúncias de agressão à criança tem origem em casa, de acordo com levantamento do SOS Criança (instituição estadual que recebe denúncias de agressão contra a criança e o adolescente).
Os episódios mais rotineiros são afogamento, espancamento, envenenamento, encarceramento, queimadura e abuso sexual.
Não é preciso ressaltar o quanto os casos de estupro, de clausura, prejudicam o desenvolvimento afetivo e psicológico da criança, sem falar naqueles que levam à morte ou a problemas físicos irreversíveis.

VIOLÊNCIA ECONÔMICO-SOCIAL

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - Trabalho Infantil (PNAD/2001), realizada pelo IBGE, o trabalho infantil é exercido por cerca de 2,2 milhões de crianças brasileiras, entre 5 e 14 anos de idade.
A maioria dessas crianças vem de famílias de baixa renda e trabalha no setor agrícola.
Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que nos países em desenvolvimento mais de 250 milhões decrianças de 5 a 14 anos de idade trabalham.
A maioria delas (61%) vive na Ásia - um continente de grande densidade populacional - e em seguida vem a África, com 32%.
Porém, em termos relativos, é na África que a situação preocupa, pois em cada cinco crianças, duas trabalham.
Na Ásia, a proporção cai para a metade: de cada cinco crianças de 5 a 14 anos, uma trabalha.
Nas grandes cidades, muitas crianças são ambulantes, lavadoras e guardadoras de carros, engraxates etc., vivem de gorjetas, sem remuneração ou com, no máximo, um salário mínimo.
Esta situação as afasta da sala de aula e também das brincadeiras, jogos lúdicos fundamentais para um desenvolvimento psicológico saudável rumo à vida adulta.
Conseqüência da pobreza, uma vez que essas crianças necessitam trabalhar para ajudar no sustento familiar, o trabalho infantil é proibido pela Constituição Brasileira de 1988 e seu combate é considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) uma das prioridades dos países em desenvolvimento.
Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
disque 100 de qualquer telefone e denuncie a violência contra a criança.

sábado, 23 de maio de 2009

Uma escola nova?

Lídia Aratangy. Foto: Daniel Aratangy
Lídia Aratangy. Foto: Daniel Aratangy

Quando uma criança adentra o portão de uma escola (sobretudo pública), ela já é vencedora de várias batalhas: venceu a luta contra a desnutrição, a desidratação, as verminoses; resistiu à ilusão de liberdade das ruas; e, mais importante, essa criança está apostando na escola, nessa primeira rodada da injusta competição entre a escola e o trabalho infantil. Por tudo isso, ela deveria ser recebida como herói.

Mas não é o que costuma acontecer. Ela ainda vai ter de enfrentar a violência da própria escola, muitas vezes sutilmente disfarçada, para se defender da demolição sistemática engendrada pelo preconceito de colegas e professores. Apelidos maldosos e brincadeiras embaraçosas são exemplos de situações que transformam a escola num palco de agressões cruéis. O professor, mesmo sem se dar conta, pode funcionar como aliado dos alunos mais integrados, tornando-se agente desse processo de exclusão dos menos competentes. Sua expectativa sobre o sucesso ou fracasso do aluno é decisiva: aqueles em cujo sucesso o professor acredita, tendem realmente a ter resultados melhores.

Assim, são ridicularizados e humilhados o aluno tímido, o que não consegue se exprimir com clareza, o desatento, o que “não tem cabeça para o estudo”, o que “não tem base”. Depois de algum tempo, essas crianças isolam-se e passam a ser tratadas com frieza e distanciamento. Exemplos de condenações prematuras e preconceituosas concretizam-se em frases como: “Se você não aprendeu isso até agora, não vai aprender nunca!”, “Você, de novo! Sempre você!”, Ou, pior ainda: “A minha classe tem três ou quatro alunos que se salvam, o resto não vai dar pra nada!”. Ao passar adiante esse tipo de informação, o professor contribui para que o rótulo de “caso perdido” transforme-se numa segunda pele do aluno, que acaba por incorporar sua condenação ao fracasso. Mas são justamente esses os alunos que precisariam receber atenção redobrada, pois é sobre eles que estão os olhos cúpidos dos traficantes de drogas, dos aliciadores de menores para o trabalho clandestino, dos abutres da prostituição infantil.

A escola não é responsável por essas situações de injustiça, mas ela é detentora das armas mais poderosas para transformar essas crianças de vítimas em agentes de mudança. Dentro de seus muros elas encontram, muitas vezes, a única esperança de reversão da expectativa de fracasso, talvez o único modelo de convivência digna que a vida lhes pode oferecer. A escola tem o poder de ajudar a criança a fazer uma tradução crítica das vivências que traz, mostrando-lhe a possibilidade de uma nova leitura do mundo e desenvolvendo nela a esperança de um mundo mais justo.

Para que o processo educacional seja bem sucedido, as relações dentro da escola devem ser pautadas pelo respeito mútuo – entre professor e alunos; entre os alunos; entre os gestores e a população escolar. Dentro da sala de aula, a relação entre professor e alunos deve se basear na confiança dos alunos no saber do mestre, na esperança do professor no futuro de seus alunos.

O filme Entre os Muros da Escola é uma preciosa autocrítica de um professor sobre o fracasso da escola em atender seus alunos, uma verdadeira aula sobre o processo pelo qual a instituição, ao marginalizar seu aluno, vai fazer dele um marginal. Sutilmente, o filme mostra como as várias instâncias envolvidas na educação daqueles jovens falham em sua tarefa. Vejamos algumas delas.

1. O espaço físico da escola é frio, inóspito, opressivo. O pátio de recreio não tem sequer um banco onde os jovens possam se sentar, não há uma sombra para abrigá-los, não existe nenhuma quadra esportiva onde possam jogar bola sem incomodar os colegas.

2. A relação da escola com os pais dos alunos é precária e desrespeitosa: não há, entre os professores, ninguém que conheça a língua ou a cultura de origem de seus alunos; a escuta é desatenta e desrespeitosa, o discurso dos pais não é levado em consideração; a escola não se interessa pelo que se passa com seus alunos fora de seus muros.

3. O professor François, protagonista do filme, embora bem intencionado, é totalmente descrente da competência de seus alunos, e inadequado na sua relação com eles. Sua agressividade se revela no uso frequente da ironia e do sarcasmo, provocando nos alunos um sentimento de humilhação e vergonha, desfavorável ao processo de aprendizagem. Emblemática a conversa entre ele e o professor de História, quando este tenta sugerir uma integração entre as duas disciplinas e recebe uma resposta desinteressada e cínica sobre a incompetência dos alunos para entender um texto mais elaborado (mais adiante, a aluna considerada entre os menos capazes vai deixá-lo boquiaberto ao revelar que leu os Diálogos de Platão...).

4. A escola deixa passar excelentes oportunidades de exercer sua função educadora e formadora. Por exemplo: numa postura pretensamente democrática, os alunos se fazem representar nas reuniões do Conselho, mas nenhum dos professores presentes se dá ao trabalho de lhes explicar porque estão ali e como deveriam se comportar: apesar dos esforços das meninas para se fazer notar, os professores não lhes dão a mínima atenção, e agem como se elas fossem invisíveis. Outro exemplo: em várias cenas fica patente o valor da lealdade entre os alunos – mas a escola só valoriza os momentos de tensão e conflito entre eles (uma manifestação comovente da solidariedade entre os jovens é a atitude da menina agredida que, diante do professor, defende o colega agressor).

Nossa cultura enaltece a educação pautada no princípio de aprender com os erros. Seria bem mais eficiente aprender com os acertos. O professor François desperdiça uma boa oportunidade de recuperar seu aluno rebelde quando este lhe entrega o excelente trabalho fotográfico que fez quando solicitado a fazer sua autobiografia. É patente o encantamento do jovem por se ver elogiado pelo professor, numa demonstração da importância que atribui ao julgamento do mestre. Infelizmente, esse momento se perde. E o aluno reassume sua postura de contestação e rebeldia, que, sem encontrar canais mais adequados para se expressar, vai desaguar numa agressividade descontrolada.

É então que a escola perde a guerra. Aquele menino – bom filho, irmão carinhoso, colega leal e solidário – vai ser considerado, pelos gestores de sua escola, a maçã podre da qual a instituição quer se livrar, para proteção dos que ficam. Uma boa teoria para quitandeiros; péssima para educadores.

fonte: http://revistaescola.abril.com.b